quarta-feira, 29 de agosto de 2007

E aqueles que sempre continuam a acreditar...

Por Ana Fisch

Naquela noite o país passava por algo inédito. Em toda a sua vida, nunca um sentimento fora percebido de forma tão explícita. Muito menos aquele sentimento, o mais belo dos sentimentos, a mais válida das sensações, a mais pura de todas: a esperança. E nas ruas o povo chorava, homens e mulheres de todas as cores, tipos e religiões, de todas as classes sociais. A Avenida Paulista estava dominada e o clima que lá era imposto trazia para ela uma felicidade imensurável. As coisas finalmente vão mudar, pensava, e mais que isso, acreditava.
Naquela noite, a possibilidade de uma política mais correta e justa parecia viável, a possibilidade de um país menos desigual se aproximava, o Brasil transformado estruturalmente parecia realidade e não utopia. E durante noites e dias ela não deixou de acreditar. E vieram as primeiras ações liberais, as primeiras medidas conservadoras, os casos de corrupção, a falta de resultados, a queda daqueles em que ela um dia acreditou, do Chefe da Casa Civil, do presidente do Partido, do ministro daqui, do ministro de lá, do senador, do deputado. A cada dia que passava, a política se igualava a um lixão, cheio de chorume, de dejetos, de sujeira, onde nem os mais imundos dos urubus ousavam pousar.

Contudo, não se deve esquecer que do chorume, hoje em dia, se faz energia; que dos dejetos, se fazem objetos; que a sujeira pode ser transformada em brilho, em beleza. Porque por mais que todos cagassem em seus ideais, eles nunca deixariam de existir. E por mais que a política fique mais nojenta do que qualquer outra coisa, do que os coronéis nordestinos, ela nunca deixará de ser o instrumento mais valioso de todo e qualquer cidadão. E isso impede que ela deixe de acreditar, que ela deixe de sonhar. Isso obriga-a a manter seus ideais em pé e a lutar pelo que objetiva. A frustação deve aparecer nesse momento como obstáculo a ser sobrepassado, e não como muro intransponível. E disso, por alguns momentos, ela esqueceu. Ela quase deixou de sonhar, quase deixou de acreditar, quase deixou de ter esperança.


É claro que devemos tomar cuidado com a ingenuidade, e eu que o diga. Acreditei em todos os momento em Genoino. Votei nele após todos os escândalos, escrevi para ele. Ainda não acredito dessa posição ativa de corrupção e formação de quadrilha que ele teria tomado. Sinceramente não acho que a culpa foi dele. Mas não acho, tampouco, que ele é tão "café com leite" assim. Todos devem pagar por seus erros. E o erro de José Genoino foi ficar passivo a toda sujeira que entrava naquele partido. Não é tão ingênuo a ponto de não ter percebido nada, e sim é fraco de não ter tomado uma atitude. O que o difere de Dirceu.
Dirceu é um daqueles que faria qualquer coisa para atingir o objetivo final que procura, um daqueles para quem "os fins justificam os meios". E é aí, Dany, que eu procuro a resposta que te descabela a ponto de fazê-lo questionar a sua existência. Por que eles fazem isso? (Entenda-se por eles, os políticos). Concordo nesse ponto com aquele sociólogo Max Weber, sim o da ética e do capitalismo. Dizia Weber que o objetivo final de todo e qualquer partido político é conseguir ter poder político. Nesse ponto, Dirceu fez o que se esperaria de um político. Fez o que pôde para garantir o poder de seu partido, o que no Brasil implica em alianças políticas, o que no Brasil implica em pequenos ou grandes presentes a outros partidos, o que no Brasil sempre aconteceu e nunca foi questionado, o que no Brasil está muito errado. Porque no Brasil a justiça não funciona, porque no Brasil nos faltam valores, e eu reitero, onde estão os valores?

O PT, ou alguns atores de dentro do PT, corromperam Deus e o mundo para garatirem que seu canditado fosse eleito. Acredito que isso seja imperdoável e de uma sujeira indescritível. Mas o problema não se foca no PT, ou no PSDB, PFL, etc. O problema se foca no sistema político brasileiro, que não funciona. Mas isso é uma discussão para outro momento.
Para finalizar, farei um diálogo com Weber, já que todos os anteriores procuraram dialogar com alguém. Eu lhe digo, caro Max, que meu conhecimento sociológico não se compara ao seu, e até concordo com seu ponto de vista. No entanto, não restrinjamos todos os partido políticos a esse único objetivo vil. A política, por mais que tenha suas falhas, ainda é um instrumento valioso para as possibilidades de mudança e algum dia, os partidos serão limpos e utilizarão desse instrumento pelo bem da população.
Essa é uma daquelas que sempre continua a acreditar...

Um comentário:

Vai Levando... disse...

Por Fábio Zuker

Acredito piamente que o Brasil foi, intencionamente, despolitizado. Que nosso país passou por um processo de despolitização do qual remontam máximas como: "Nenhum político presta" e "Todos são ladrões".
Valorizemos a Política, pois, sim, ela é a única maneira pela qual podemos melhorar o mundo (entendamos aqui o sentido lato de política, desde discussões, manifestações à plebiscitos e eleições)